Percorrendo a Rota do Chá no Brasil

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Esse texto foi escrito no ano passado, quando o Portal Gastronomix ainda era blog. Mas agora, com a 3ª Rota do Chá batendo na porta, já marcada para o final de semana dos dias 10 e 11 de novembro, resolvi reeditá-lo aqui, para que você tenha ideia do que vivi no Vale do Ribeira. De verdade, uma experiência que todo mundo deveria ter. Foi incrível revisitar a história da imigração japonesa, conhecer um pouco de uma história que não nos é contada com detalhes; sentir emoção no chazal, nas pessoas que fazem aquele lugar… Olha só!

No início do século XX, a região do Vale do Ribeira, em São Paulo, recebeu um grande número de imigrantes japoneses. Inicialmente interessados no cultivo do arroz, fixaram-se com suas famílias no município de Registro e descobriram que aquelas terras ácidas, naturalmente encharcadas pelo rio, em que chovia sempre, ofereciam um enorme potencial agrícola para algo que sabiam cultivar: o chá.

É verdade que há relatos de outras tentativas de cultivo de chá no país, no Rio de Janeiro e até mesmo em São Paulo, na capital e no oeste do Estado. Entretanto, foi em Registro, a partir de 1935, quando Torazo Okamoto, introduziu em suas terras a variedade assâmica, de origem indiana, que a cultura do chá se estabeleceu e se manteve, por muito tempo, como principal atividade econômica da região. A cidade, que já chegou a ter 42 (quarenta e duas) fábricas de chá de pequeno e grande porte (Chábras, Chá Ribeira, Agrochá, Amaya e Cotia, por exemplo) até os anos 80, época áurea do chá brasileiro, hoje conta com apenas 2 (duas) e tenta fazer renascer tal cultura, de um jeito único e lindo.

Louca para conhecer toda essa história, que se confunde com parte da história da própria imigração japonesa, embarquei em uma viagem incrível de final de semana, a “Rota do Chá”, organizada pela Escola de Chá Embahú. Conduzidos por Yuri, Cláudio e Renata (Infusorina), e, literalmente, pelo melhor motorista de van do mundo, Seu Renato, passamos um final de semana vivendo o chá, em meio a muitas emoções que tento, agora, descrever.

Registro respira chá. Em suas calçadas, por toda a cidade, está a marca do produto que, até os anos 90, garantiu o desenvolvimento econômico da região: arbustos de Camellia Sinensis (criação do artista Sesary Roberto de Oliveira). Na bandeira do Município, a flor da Camellia, para lembrar que, ali, há orgulho do que se planta.

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Pezinhos sujos sobre a calçada de Registro

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Bandeira de Registro, com a flor da Camellia

Começamos nossa expedição na margem do Rio Ribeira de Iguape. Uma bela cerimônia do chá contemporânea, cheia de significado e emoção, conduzida com delicadeza por Vinícius Monfernatti e Erika Kobayashi, intitulada de “Florescimento”, foi realizada para representar “o esforço das famílias produtoras que, apesar da crise, resgatam e fortalecem a cultura do chá na região do Vale do Ribeira”. O chá foi servido a membros das famílias Shimada e Amaya, produtores de chá da cidade. Simplesmente incrível!

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Olha o @asaladecha aí, gente!

Em seguida, fomos ao Sítio Shimada, que produz um dos chás mais especiais da existência, o Obaatian, conhecido como o chá da vovó. No chazal da família, Teresinha Shimada, filha da vovó que dá nome ao chá, e seu marido Leo, nos ensinaram a colher chá, de forma manual, como fazem, enquanto nos contavam um pouco sobre a história da família, da produção. Sonho realizado!

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De lá, fomos para a sede do Sítio, bater um papo com a Rainha do chá brasileiro, Dona Elizabete Ume Shimada, a própria Obaatian, em carne e osso. Com um bom humor invejável, contou um pouco de sua história, quando, aos 87 anos de idade, resolveu começar a fabricar o próprio chá, depois que sucessivas crises fizeram com que as fábricas não comprassem mais a sua produção. Vimos todo o envolvimento da família na luta pela recuperação dos chazais e, claro, tomamos muito chazinho, com comidinhas maravilhosas, em um momento cheio de afeto e emoção.

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À tarde, conhecemos a Amaya, a maior fábrica de chás brasileiros, que produz chás verdes e pretos de outra maneira, em escala industrial, e tivemos uma aula sobre as etapas de processamento. No sítio, visitamos a antiga casa da família Amaya, hoje tombada pelo patrimônio histórico, visitamos seu chazal e aprendemos sobre a colheita mecanizada, diferente daquela realizada pela família Shimada.

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Foto: Escola de Chá Embahú

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Foto: Escola de Chá Embahú

No domingo, voltamos ao Sítio Shimada, para, sob a orientação de Teresinha, acompanharmos as etapas de processamento do chá que colhemos. Depois, conhecemos a plantão de lichia mantida na propriedade, a lojinha da Obaatian, inaugurada na ocasião, com chazinhos, bordados feitos pela vovó e biscoitinhos deliciosos feitos por Teresinha. Ao final, almoçamos com a família Shimada, que é indescritivelmente acolhedora, da vovó aos netos (Yuki e Alice, muito amor!). Foram dias de emoção, boa companhia, conversa massa e, claro, muito chá!

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Meu chazinho Obaatian!

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Foto: Escola de Chá Embahú

Se você também gosta de chá, não perca a próxima edição da Rota do Chá, em novembro de 2018. Esse ano, quem organiza é a Infusorina , com o apoio da amada Escola de Chá Embahú.

Nas minhas redes sociais há algumas outras imagens desse momento, que foi, de fato, um dos mais emocionantes da minha vida: @chazeira (insta) ou @eloinachazeira (face). Se quiser saber outros detalhes, precisar de alguma orientação ou compartilhar alguma dica imperdível, pode mandar e-mail para [email protected], que respondo. Chá, como já disse, é meu assunto preferido, sempre!

Beijos e bons chazinhos! Até a próxima quinta!

Especialista em chás

Se tiver chá, lá ela estará! Apaixonada pelo mundo dos chás e tudo o que com ele se relaciona, de porcelana a livros, de lugares a receitas, de comidinhas a experiências. Acredita que a xícara perfeita é capaz de criar momentos mágicos; a eles se entrega com toda a sua verdade... E eterna curiosidade! Especialista em chás e tea blender por paixão, servidora pública por profissão. Em Brasília/DF.

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