Tucupi: o veneno que vira tempero

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O tucupi, ingrediente de um dos mais famosos pratos da culinária do Norte do Brasil, o pato no tucupi, teria surgido, segundo uma lenda amazônica, no momento em que as lágrimas de Jaci, a lua, caíram sobre uma plantação de mandioca.

De acordo com a mitologia, acompanhada por Iassytatassú, a estrela d’alva, Jaci teria resolvido visitar o centro da Terra. Fariam isso, mergulhando em um profundo abismo. Antes, porém, resolveram descansar em uma imensa vitória-régia sobre um rio.

Naquele momento, Jaci despertou a fúria da serpente Caninana Tyba, que a mordeu no rosto. E foi aí que aconteceu: as lágrimas de Jaci caíram sobre uma extensa plantação de mandioca e deram origem ao tucupi.

À parte toda a poesia da lenda, o tucupi é conseguido, na verdade, a custo de muita mão-de-obra. Primeiro, descasca-se, rala-se e espreme-se a mandioca brava, tirando dali um sumo amarelo que possui alta concentração de ácido cianídrico.
Esse ácido é um dos venenos mais letais já descobertos pelo homem. Para se ter ideia, ele é utilizado na fabricação de plástico, corantes, acrílicos e pesticidas. Durante a Primeira Guerra Mundial, foi utilizado até como arma química pelos dois lados do conflito.

O segredo, porém, é deixar o caldo “descansar” para que o amido (a goma) se separe do líquido (o tucupi). Feito iso, o líquido é cozido e fermentado de três a cinco dias, perdendo assim o veneno. Aí está pronto para ser usado na culinária. Já o amido, vira tapioca.

A grande questão é: como diabos foi que descobriram que esse era o tempo necessário para o veneno virar ingrediente comestível, e tão saboroso. É um desses detalhes que se perderam na história.

Fontes: “Aromas, Cores & Sabores do Brasil” (Ministério da Cultura) e Info Escola. 

Jornalista

Jornalista paraibano radicado em Brasília. Há 30 anos, trabalha com jornalismo cultural e, mais recentemente, com os assuntos de gastronomia. Passou pelas redações do Jornal de Brasília, Correio Braziliense, Jornal da Paraíba, Veja Brasília e site Metrópoles. É autor do livro O Fole Roncou, finalista do Prêmio Jabuti em 2013. Atualmente, também é editor do Boníssimo (link para bonissimo.blog), blog que aborda assuntos de cultura, diversão e ações positivas. Está no Gastronomix desde sua criação em 2009.

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