L’Atelier de Joël Robuchon: o simples sublime

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Minha mulher com frequência reclama que nas nossas férias, ao invés de conhecer lugares novos, eu insisto em voltar a Paris. Todos os amigos inclusive se condoem muito de todo o sofrimento que ela é obrigada a passar na capital francesa, aquela cidade feia e sem charme, onde come-se e bebe-se terrivelmente mal. Um verdadeiro inferno na Terra!

Apesar disso, eu não consigo mudar. Apaixonei-me por Paris desde o primeiro momento em que ali pisei, aos 19 anos, naquela típica primeira viagem à Europa, com pais, tios e primos. Odeio clichês com toda força, mas este é um caso que demanda o uso da expressão “amor à primeira vista”.

Nessa primeira viagem, ocorreu o início de minha descoberta da Paris gastronômica. Para quem vinha da então limitada cena de restaurantes do Rio nos anos 80, vocês não imaginam o prazer de provar coisas simples e tão deliciosas como a sopa de cebola gratinada, tão típica dos bistrôs parisienses, escargots, patê de campanha, geléia de cassis…

Mas foi apenas na minha segunda viagem à cidade, 13 anos depois, que a descoberta verdadeira ocorreu. Paris se tornou o local natural do prazer gastronômico, o lugar por excelência da busca pelo prato perfeito, acompanhado, de preferência, por uma linda garrafa de Bordeaux.

E o símbolo desse deslumbramento foi Joël Robuchon, o grande chef que nos deixou esta semana. Pouco antes de nossa viagem, Robuchon havia decidido encerrar sua aposentadoria precoce e abrir um restaurante em Paris com um novo conceito: um lugar mais informal, onde as criações do chef seriam servidas em porções pequenas ou grandes, à escolha do freguês. A ideia era criar uma casa mais acessível e permitir que os comensais provassem o maior número de pratos possível.

Surgia então o L’Atelier de Joël Robuchon, na escondida Rue Montalembert, em Saint-Germain-de-Près, conceito que o chef levou para várias cidades do mundo. No L’Atelier original, a cozinha é o centro do espetáculo, cercada por balcões que fazem as vezes de mesas. Os comensais assistem ao balé dos cozinheiros e são brindados com a comida simples e extremamente sofisticada criada por Robuchon.

Já naquela viagem viramos fregueses do restaurante e admiradores assumidos do chef. Nunca sairão da minha memória gustativa os sabores do ravioli de lagostim com trufas num caldo delicioso de repolho; o gyosa de frango, alho-poró e gengibre, também num caldo extremamente perfumado; e o bacalhau negro com missô e creme de berinjelas. Mas o meu prato favorito de todos os tempos é de uma simplicidade intrigante: costeletinhas de cordeiro mamão com purê de batatas.

Essa era a essência de Joël Robuchon: transformar algo simples em sublime. Não sei o que acontecerá agora com sua rede de restaurantes, mas espero que eles não percam essa alma, que nos encantou tanto desde aquela distante viagem.

AVALIAÇÃO
Comida: 9/10
Ambiente: 10/10
Serviço: 9/10
Carta de vinhos: Completa e diversificada, como foco em vinhos franceses.
Preços: Caros

Dica extra: O purê de batatas do meu prato favorito é, não por coincidência, a receita mais famosa de Robuchon. Ela ganhou fama mundial. E que purê, caro leitor! É como se você estivesse comendo o paraíso em forma de creme. Clique aqui e assista um vídeo (em inglês) da revista Time em homenagem ao chef. Se ficou curioso para conhecer o purê de batatas de Joël Robuchon, veja aqui como fazer a famosa receita.

L’ATELIER DE JOËL ROBUCHON
Rue Montalembert 5
Saint-Germain-de-Près – Paris
Telefone: 33 01 42 22 56 56

Editores, colaboradores e convidados do portal Gastronomix.

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