Humaitá, meu querido bairro carioca

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Esta não é uma coluna sobre o presente, caro leitor. Ao contrário do que venho sempre escrevendo aqui, falando de casas que frequento atualmente, hoje acordei nostálgico. Saí da cama com uma dor no peito, lembrando de lugares que existem apenas na lembrança e no coração de alguns. Sou um filho do Humaitá, bairro discreto e até pouco conhecido do Rio. Somos um local de passagem, ligando boa parte da Zona Sul a Botafogo e ao Centro. Mas, dentro desse baixo perfil, nos destacamos por uma relevância especial à tradição boêmia carioca.

Aqui existiram casas míticas, cuja memória – cheia de bons momentos, brindes, paixões e desenganos – se soma ao imaginário coletivo dessa sofrida cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. Muitos dirão que Ipanema, Copacabana e Leblon talvez sejam mais importantes e relevantes para a história etílico-gastronômica carioca. Não para mim.

Vivi praticamente toda a minha vida no Humaitá. Cresci dentro da Cobal. Aqui amadureci e me tornei adulto. Nas esquinas deste bairro, me apaixonei, me decepcionei e aprendi a ser o que sou.

Devo portanto ao quadrilátero mítico, numa recorrente referência borgiana desta coluna, de Conde de Irajá, Pinheiro Guimarães, São Clemente e Rua Humaitá tudo o que sou hoje. Faço aqui esta homenagem ao bairro, com um sentido de dívida e gratidão que me corrói e anima ao mesmo tempo.

Comecei no Humaitá minha vida etílica e daqui nunca saí. Frequento com devoção casas eternas como o Botequim, o Aurora, o Plebeu, o Palhinha e o Caravela do Visconde, companheiros de tantas décadas. Aprendi a amar também Irajá, Tragga, Meza, Lima, Oteque, Joaquina, Pizza Park, Dom Luís e Eccelenza, descobertas mais recentes e quase tão importantes em minha trajetória.

Isso sem esquecer o Fuska 2.0, a nova reencarnação do botequim pé-sujo em que trocava cascos de refrigerante nos anos 70 (o leitor mais jovem provavelmente terá que pesquisar para entender esse hábito arcaico e, felizmente, desaparecido). Com excelente programação musical em plena rua, o Fuska 2.0 transformou a confluência de Visconde de Caravelas e Capitão Salomão na esquina mais badalada do bairro.

Mas não existe dia em minha existência em que não me lembre daquelas casas que marcaram minha adolescência e juventude. A descoberta da noite na meia-luz da Cantina Bolonhesa, o primeiro beijo apaixonado no Overnight, a sensação de pertencer a uma turma de amigos eternos nas mesas do Razão Social e do Tio Otávio, a descoberta da minha paixão pelas pizzas no Rei dos Lanches, as noites intermináveis no Ballroom, o amor numa mesa do Osteria Policarpo.

Talvez, em outra oportunidade nostálgica, escreva sobre os bares que marcaram minha vida em outros bairros, principalmente no Baixo Leblon, o lugar por excelência da boemia da minha geração. Mas hoje quis fazer esta singela homenagem ao meu bairro, onde me sinto em casa e tenho em cada esquina uma lembrança do que fui e uma visão do que serei.

Editores, colaboradores e convidados do portal Gastronomix.

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