Botequim: o porto seguro da comfort food

botequim

Como moro há 43 anos no Humaitá, o estimado leitor terá todo o direito de pensar que sou pouco afeito a mudanças. Conseguirá, portanto, imaginar meu choque, em 2016, quando soube que o Botequim, um dos restaurantes mais tradicionais do bairro, que toda vida esteve naquela linda casa verde-limão no fim de uma tranquila rua sem saída, iria trocar de endereço.

Foi o que aconteceu com a casa fundada em 1979 e lugar do coração para a minha geração. Tudo bem que o Botequim mudou para a mesma rua, a três quadras do endereço original, e tecnicamente continua naquela região em que ninguém sabe bem se já chegou a Botafogo ou ainda está no Humaitá. Mas, para mim, foi uma mudança difícil de digerir (sem trocadilho!).

Principalmente porque colocava em risco o que o Botequim tinha de melhor: a familiaridade, sensação tão reconfortante neste mundo cada vez mais impermanente. Isso porque o Botequim era para mim o porto seguro da comfort food, o lugar daquela comida com gosto de casa.
Confesso, caro leitor, que passei incontáveis noites da minha adolescência/juventude regadas a chope, batata frita, e provolone à milanesa e vivi muitas histórias no mezanino dos fundos daquela casinha verde-limão.

A boa notícia é que a mudança não significou o abandono de pratos clássicos da casa. Ainda estão lá o Filé à Oswaldo Aranha, o Escalopinho ao molho madeira com brasileiríssimo arroz a piamontese, o Bobó de camarão, e o Bife à milanesa.

Mas o que finalmente sossegou o meu coraçãozinho sobre o novo Botequim foi ver que o Picadinho à Luiz Antônio continua firme e forte no cardápio. Ahh, o Picadinho à Luiz Antônio!

Vale a visita, leitor! Trata-se de um picadinho de filé mignon com muito molho, acompanhado de farofa de banana, batata frita e arroz com ovos mexidos e linguiça. É bom demais!

Enfim, mesmo já não sendo mais o restaurante da minha adolescência, o Botequim soube preservar o que tinha de bom. E a nova casa é tão linda quanto a original.

AVALIAÇÃO
Comida: 8/10
Ambiente: 7/10
Serviço: 8/10
Carta de vinhos: Esqueça. Vá de chope ou caipirinha.
Preços: Acessíveis

BOTEQUIM
Rua Visconde de Caravelas, 22 – Botafogo
Telefones: (21) 2286.3391 e (21) 2537.7650
Site: http://botequimrestaurante.com.br/

Dica extra: memórias são muito pessoais e nem sempre interessam aos demais. Mas, caso você queira saber um pouco mais sobre minha história com o Botequim, segue aqui um texto que escrevi quando soube da mudança de endereço:
“Eu devia ter nove anos de idade e, da janela do meu quarto, no apartamento 103 do prédio 40 da rua General Dionísio, conseguia ver bem o final da Visconde de Caravelas. Era uma rua muito residencial e, por ser sem saída, quase sem trânsito. Tornara-se, desde a mudança para o Humaitá, nossa pista preferida para anodar de bicicleta. Até hoje, numa regressão quase proustiana, volto àquela época ao sentir o cheiro das flores e frutos dos abricós-de-macaco, árvores que ainda povoam as ruas do bairro. Tudo era rotina até que, certo dia, surge uma novidade na rua: um restaurante. Era o Botequim, então chamado de Botequim 184.

Ainda na infância, era o que poderíamos chamar de um frequentador eventual. Tínhamos fixação pelo então restaurante tradicional do bairro, o extinto Rei dos Lanches, com seus galetos, pizzas e lasanhas. Mas, a partir da adolescência, por volta dos 14, 15 anos, o Botequim se transforma no bar de lei da minha turma.

Passávamos horas no mezanino dos fundos, em noites regadas a chope, batata frita e provolone à milanesa.  Como falar do Botequim sem lembrar de Momô, Claudinha, Christian, Elias, Elie, Michael e tantos outros, amigos próximos e agregados? E depois, já na época da faculdade, de Alice, Raquelzinha e Adriana?

Com o tempo e a idade, a vida vai ficando mais complicada. Saí do Rio para uma temporada em São Paulo, e minhas idas ao Botequim ficam mais espaçadas. Retorno à cidade, mas, ainda assim, não volto a frenquentá-lo como antes. Meu reatamento com nosso restaurante ocorre na mais improvável das circunstâncias: quando vou morar em Buenos Aires, onde fui correspondente do Globo por três anos.

Apesar dos mais de 2.600 quilômetros de distância, o Botequim torna-se, de alguma maneira, o símbolo de minhas saudades do Brasil. Era dele que me lembrava (e também de Big Bob, com milk-shake de Ovomaltine, por incrível que pareça) quando sentia falta de nossa comida. Quando vinha ao Rio, criei a tradição de chegar, largar as malas em casa e ir direto almoçar no Botequim. Com ou sem companhia!
Este foi o momento da descoberta do Picadinho à Luiz Antônio, meu prato preferido do Botequim. A combinação do molho grosso da carne com o arroz com linguiça e ovo e a farofa de banana ainda me emociona depois de tantos anos. Voltava de Buenos Aires nos aviões da saudosa Varig sem conseguir conter a ansiedade de comer o “meu” picadinho.

Retorno de vez ao Rio, e o Botequim naturalmente volta a fazer parte da minha vida. Depois de tantos anos, ele se torna o lugar da familiaridade, o pouso seguro. É onde encontro a minha confort food: pão de alho, feijoada, picanha, bife à milanesa com arroz, feijão e batata frita e tantos outros pratos. É o restaurante ao qual vou a pé, de bermuda e camiseta. É a cara do Humaitá, bairro onde morei praticamente toda a minha vida.

Minha mulher e eu sentiremos falta da velha casinha verde-limão, parte da história de minha vida. Mas prometemos continuar fiéis. Sucesso ao novo Botequim 22″.

Editores, colaboradores e convidados do portal Gastronomix.

4 Comentários

  1. Flavio encontrou a sua verdadeira vocação. Culinária e bons textos. Poucas pessoas conhecem cada canto culinário do Rio como ele!

    • Obrigado, querida! Só Luiz Antônio me supera nesse quesito! rs

  2. Deliciosa viagem entre memórias e sabores. Difícil controlar o desejo por esse picadinho... vou colocar na minha lista pra quando estiver no Rio novamente.

    • Obrigado, querida! Na sua próxima vinda, a gente vai lá!

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