Amélia: a marca de uma vida

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Pergunte a Maria Amélia Mangabeira o que é determinante para uma farinha de mandioca ser considerada de primeira. Ela responderá de imediato, com convicção:

– Mandioca de boa qualidade, processo artesanal de produção, limpeza da farinha e granulometria (dimensões dos grãos).

Disso ela entende. Nos últimos 25 anos, a empresária baiana, radicada em Brasília, tem usado rigorosamente esses critérios para controlar a qualidade da farinha que leva seu nome. Produzida no Recôncavo Baiano, a farinha Amélia é atualmente distribuída para mercados, padarias, empórios, mercearias e restaurantes do Distrito Federal, Rio de Janeiro e São Paulo a partir de um galpão em Taguatinga Sul.

A clientela de Maria Amélia inclui desde pequenos estabelecimentos até as redes Pão de Açúcar, Extra e Oba. Também compram farinha na mão da empresária restaurantes como Rubaiyat e Barbacoa.

Aliás, depois de provarem da farinha Amélia, os responsáveis pelas compras dessas duas redes paulistanas acabaram adotando o produto em suas matrizes e em outras filiais.

Foi o pontapé para que o produto baiano-brasiliense começasse a alcançar mesas e prateleiras de São Paulo e Rio de Janeiro. Um capítulo novo numa história que envolve mais que rigor técnico.

PSICOLOGIA E VASSOURA-DE-BRUXA

Fé, perseverança e coragem foram ingredientes essenciais no enredo que Maria Amélia Mangabeira protagonizou a partir de 1992, quando chegou a Brasília, disposta a comercializar farinha trazida de sua terra.

Caçula de seis irmãos, ela nasceu e cresceu em Itabuna numa família de posses. O pai, Lucas Mangabeira, era dono de uma loja de ferragens e de fazendas de cacau. Os negócios, porém, não a seduziam. Sonhava em estudar psicologia. “Sempre fui atraída pelo ser humano”, conta.

Mas, como não queria deixar Itabuna para estudar em Salvador, optou pelo curso de letras. Chegou a dar aulas de inglês. A morte do pai, porém, a levou em outra direção. Os imóveis que recebeu de herança, Maria Amélia trocou por uma fazenda de cacau. Acreditava que ali estava o dinheiro.

Intuição errada. A fazenda não só não deu os lucros esperados como foi assolada por vassoura-de-bruxa (doença que ataca plantas, em especial o cacaueiro). Viu-se, então, obrigada a vender a propriedade por uma ninharia.

Era 1989. Separada, com dois filhos (um adolescente e uma menina) e uma herança perdida, resolveu recorrer à sua paixão pela mente humana para ganhar algum dinheiro. Passou a promover eventos na área de psicanálise.

– Eu levava a Itabuna especialistas da área, promovia encontros, seminários… Era muito bom, mas o que eu ganhava era pouquíssimo.

BRASÍLIA, AQUI VAMOS NÓS
Em 1992, a história mudou outra vez de rumo. O filho mais velho, Daniel, precisou se mudar para Brasília. Moraria na casa da madrinha enquanto se preparava para o vestibular na Universidade de Brasília (UnB).

Maria Amélia, que não queria se separar das crias de jeito nenhum, achou ótima a proposta de um amigo para abrirem em sociedade, na capital federal, uma empresa de distribuição de farinha e banana-da-terra.

Trazendo a tiracolo a filha mais nova, Débora, a baiana de Itabuna chegou a Brasília cheia de vontade. Alugou um galpão no Ceasa e tudo… Pena que o sócio acabou desistindo do empreendimento.

Ela não esmoreceu. Instalada com os filhos num apartamento de dois quartos, alugado na 310 Sul, acionou um plano B: dar prosseguimento sozinha à ideia sugerida pelo ex-futuro sócio.

Apanhou na Rodoferroviária cinco sacas de 50kg de farinha da boa que mandou buscar na Bahia. Comprou sacos de plástico transparente e fez pacotes de 1kg. As etiquetas eram datilografadas uma a uma pelo filho.

A partir daí, colocava tudo em sua Belina branca e saía oferecendo em feiras e mercados – na maioria das vezes por consignação. Só contava com a ajuda de Daniel e a boa vontade de um tio, que morava no Lago Norte e lhe emprestava a garagem para o empacotamento.

– Tínhamos que enrolar os dedos com uma gaze para não sangrar, de tanto que ficavam com calos amarrando os arames para fechar o saquinho com o produto.

Vendia somente para estabelecimentos pequenos porque não tinha firma constituída. Por sorte, foi abordada pela fiscalização justamente no dia em que conseguiu, finalmente, por a papelada em ordem.

DORES DO CRESCIMENTO

Aí já tinham se passado quatro anos. Os rótulos datilografados cederam aos impressos em gráfica, foi admitido o primeiro funcionário: Seu Vicente (a empresária nunca esquece o nome dos colaboradores) e a distribuidora de farinha mudou de endereço.

Dona Amélia alugou uma garagem de uma casa no Cruzeiro Velho e incluiu no negócio outro produto, o feijão de corda, também trazido da Bahia. “A dona da casa era Flor de Lis”, lembra, confirmando a boa memória para os nomes a quem é grata.

Tudo iria bem se uma estranha coceira não estivesse incomodando todo mundo. Flor de Lis, Seu Vicente, Maria Amélia, Daniel (que fazia faculdade mas ainda dava uma força no empreendimento da mãe)…

A resposta ao problema veio lá do interior da Bahia. “Mas Dona Amélia, a senhora tem que expurgar o feijão!”, explicou um fornecedor. Ou seja, ela teria que usar uma pastilha para matar os fungos antes de embalar os grãos.

Lição aprendida, os negócios caminhando. A Cofaban (Comério de Farinha e Banana) mudou para uma sede maior – a ideia de comercializar banana não vingou, mas o nome foi mantido.

A empresária alugou, de certo João Lourenço, um apartamento e uma garagem na Metropolitana, local histórico, atrás do Núcleo Bandeirante. O lugar tinha clima de interior (“era como ter voltado para Itabuna”, Daniel relembra) e o comércio de farinha e feijão ia bem.

PACIÊNCIA NO COMANDOEm pouco tempo, Maria Amélia teve de alugar outras garagens vizinhas e ampliar o quadro de funcionários. Mas a área ainda era residencial e alugada, por isso a sede não demorou a se mudar de novo.

Desta vez, com as economias de anos de trabalho, comprou um galpão no setor comercial de Taguatinga Sul, onde a Cofaban funciona até hoje. Oito funcionários, todos homens, trabalham no lugar, liderados por uma patroa de fala suave e aparente calma.

A empresária não precisa falar grosso nem estar presente o tempo todo – trabalha mais de casa ou na rua, em reuniões com clientes – para controlar a equipe.

“Paciência é a fórmula de lidar com pessoas”, diz ela. Em 25 anos de empresa, a comerciante de farinha somente uma vez foi reclamada na Justiça por um funcionário. Ele não compareceu à audiência.

É no galpão de Taguatinga Sul que os caminhões vindos do Recôncavo Baiano descarregam as sacas de farinha e feijão. Vêm de diversos pequenos produtores, que plantam produzem exclusivamente para Maria Amélia.

Ela também costuma viajar regularmente para ter contato com os fornecedores. Quando não vai, manda pelos caminhoneiros presentes para produtores, esposas e filhos; recebe presentes deles.

Mas as viagens à Bahia servem, sobretudo, para que ele possa fiscalizar o processo de produção. Se a farinha não está como deve ser, manda devolver. Uma vez, mandou de volta 30 sacas porque a farinha estava mais ácida do que deveria.

O PODER DO RECOLHIMENTO

Débora, Amélia e Daniel: os Mangabeira reunidos em evento familiar 

O senso prático, porém, não a faz se esquecer de cultivar o espírito. Todos os dias, por uma hora, Maria Amélia se desconecta do mundo e se recolhe. É quando repõe as forças e encontra soluções para os possíveis problemas.

Um hábito que adquiriu desde há muitos anos, em Itabuna, quando se viu numa situação difícil, relacionada à venda de um terreno. No meio do estresse, parou e descobriu em si mesma a força para encontrar a solução.

Sobre essa e outras experiências semelhantes, ela chegou até a escrever um livrinho, “O Poder do Recolhimento”, editado por uma amiga. Nele, Maria Amélia Mangabeira mostra que nem só de farinha e feijão vive o homem.

Jornalista

Jornalista paraibano radicado em Brasília. Há 30 anos, trabalha com jornalismo cultural e, mais recentemente, com os assuntos de gastronomia. Passou pelas redações do Jornal de Brasília, Correio Braziliense, Jornal da Paraíba, Veja Brasília e site Metrópoles. É autor do livro O Fole Roncou, finalista do Prêmio Jabuti em 2013. Atualmente, também é editor do Boníssimo (link para bonissimo.blog), blog que aborda assuntos de cultura, diversão e ações positivas. Está no Gastronomix desde sua criação em 2009.

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