48 horas no Porto: comer, beber e caminhar                

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Em pouco tempo em Portugal, é possível perceber mais similaridades entre nós, colonizados, e eles, colonizadores, do que prevê os livros de história e as piadas pouco realistas com a atualidade portuguesa. A “rixa” bem humorada entre Lisboa e Porto, por exemplo, claramente lembra um debate de onde se vive melhor: Rio ou São Paulo? Apesar de Lisboa guardar, pessoalmente, mais o charme da noite carioca e a vibe solar próxima ao litoral, é na cidade do norte português, famosa pelo corte do rio Douro, que se encontra o sotaque mais “cantado” e parecido com o gingado do sambista malandro.

Comparações à parte, Portugal guarda em sua extensão, mesmo que modesta, bons e específicos sabores regionais à mesa – Porco Alentejano e Ovos Moles. No Porto, não é diferente. Entre uma visita à cave de vinho licoroso e um passeio pelas ladeiras antigas, são muitas as possibilidades para se comer bem. Da lanchonete “pé-sujo” ao restaurante mais moderninho, comandado por um chef antenado. Bloco de notas aberto, memória no celular disponível e o melhor destino europeu de 2017: a seguir, o que você deveria muito ver em dois dias por lá.

Minha dica para começar a se aventurar pela cidade, que deu nome ao país, é partir do centro, com a clássica ESTAÇÃO FERROVIÁRIA SÃO BENTO (foto acima). Mais do que um simples ponto de partida e chegada, o local é um ex-convento, construído em 1900, e eternizado em um painel de azulejos. Da história nacional, contada nos mais de 20 mil quadradinhos, é possível sair direto para uma caminhada aos dias atuais que leva para um Porto moderno.

A 400 metros dali, e algumas subidas depois, está a tradicionalíssima lanchonete/cervejaria GAZELA, com os cachorros (primo do nosso quente) mais famosos por aquelas bandas e aprovados, inclusive, por Anthony Bourdain. Estilo boteco, onde se come em pé, encostado no balcão meia-lua disputadíssimo, o local serve há 56 anos a receita de pão crocante recheado com salsicha artesanal, lâmina de linguiça picante e queijo derretido, cortado em quadradinhos (2,80€). Para casar, há batatas fritas e fino gelado (como a cerveja é chamada no norte), ou cidra, para os “esquisitos” como eu.

Ainda no modo “walking”, poucos passos levam até a famosa Rua Santa Catarina, conhecida pela oferta de comércio e por abrigar o café mais antigo (e também o mais turístico) da cidade, o MAJESTIC. Fachada vista e pin marcado no mapa, o passeio continua ao virar a esquina para encontrar o MERCADO TEMPORÁRIO DO BOLHÃO. O original está em processo de revitalização desde maio, mas a essência local se mantém mesmo na estrutura provisória. Flores, barracas vendendo produtos típicos a lá bacalhau e outras oferecendo degustação de vinho do Porto, harmonizada com tábuas de queijos, fazem parte da realidade preservada do lugar.

E enquanto houver bom tempo, haverá também espaço para esplanadas. Por isso, até meados de outubro, se você tiver sorte, dá para brindar o entardecer ao ar livre em espaços como o BASE (foto acima). Aos pés da Torre dos Clérigos — posto que guarda uma das melhores vistas panorâmicas da cidade –, a iniciativa mescla conceito de bar, lounge e gramado com DJ embalando ao fundo. A carta de bebidas fica no conforto dos clássicos, como Aperol Spritz e Gim Tônica, mas às vezes é só isso que a gente precisa, não é? É próximo dali que também se tem uma das melhores vistas para o pôr-do-sol, no PASSEIO DAS VIRTUDES. Amigos, casais e famílias estendem suas toalhas em dias mais quentes para assistir o espetáculo cortado pelo Douro e, por vezes, acompanhado de forró — sim, o Brasil está em toda parte.

Clima mais ameno e noite anunciada, a pedida do jantar pode levar ainda a pé ou de Uber até a gastronomia moderna e sem excesso do chef Pedro Braga, na Baixa do Porto. No MITO (foto abaixo), as receitas propõem um passeio pela cozinha portuguesa em vertente autoral, mas desmitificando — olha o nome — a atmosfera do fine dining. Acerto em cheio com um cardápio feito para compartilhar e dividido em seções de “frio”, “quente”, “carvão” e “conforto”.

É da segunda categoria que sai a boa sacada das Bolas de Berlim (espécie de sonho brasileiro) recheadas com creme de Pata Negra e bacon (6€). Já com toque defumado vem o tutano em crosta de camarão e especiarias asiáticas (6,50€), enquanto de sobremesa dá para ficar em dúvida entre a rabanada de matcha e o sanduíche de chocolate com sorvete de manteiga noisette e marshmallow tostado (5€ qualquer uma das duas). De segunda a sexta a conta fica ainda mais acessível nos formatos de almoço, que podem vir em duas, três ou quatro etapas, mais bebida (9,80€, 10,80€ e 15,50€).

No segundo dia, se a programação incluir burlar o café da manhã do hotel ou explorar as versões de brunch que vêm conquistando cada vez mais os portugueses, a boa notícia é: fica, porque tem panqueca, bagel e otras cositas más. Com pegada comfy e mesa comum, o BRICK CLÉRIGOS (foto abaixo) não só convida à partilha de histórias entre os comensais, mas também às experiências que vêm junto aos pedidos com certa influência mediterrânea.

Por lá, encontra-se de tosta de abacate com camarão e endro a wrap de cogumelos com guacamole (9€ cada). Se a espera não for um problema (na minha visita o serviço se atrapalhou um pouco) e o paladar norte-americano falar mais alto, a visita ao FLAVIIS não decepciona quando se trata de receitas “instagramáveis”, com toppings, recheios multicoloridos e afins. Entre os smothies, por exemplo, há seis opções, do tipo ananás (o abacaxi mais adocicado), banana, manga, granola e côco ralado, batidas com iogurte, suco de laranja, leite ou chá (5€).

Para uma digestão proveitosa, use o embalo da descida e vá caminhando até a Ribeira. Pouco mais de 1km de aproveitamento irá te levar até a parte mais icônica da cidade, lembrada pela ponte inspirada na Torre Eiffel ao fundo. É no cruzar (a pé, por favor) da ponte Luís I, chegando até Vila Nova de Gaia, que encontram-se as caves de vinho do Porto mais emblemáticas. Na SANDEMAN, o tour clássico pela produção de mais de 200 anos acontece seguido pela degustação de dois rótulos, o Ruby e o Tawny Porto, e custa o total de 12€. Ao fim da visita, ainda dá para aproveitar o bar da marca do lado de fora e experimentar uma sangria feita do vinho licoroso, sentado à beira do Douro.

A essa altura a fome já deve dar sinais, portanto faça os cálculos de tempo e alinhe uma reserva no pequeno e disputadíssimo TABERNA DOS MERCADORES (foto abaixo) — de volta do lado do Porto. No espaço para apenas 16 pessoas, o ambiente é discreto, medieval, e a comida tradicional é que surge como espetáculo. Nele, comi o melhor bolinho de bacalhau da minha curta existência e vasta experimentação nesse primeiro ano por aqui. Se quiser continuar por escolhas “Do mar”, como separa a ementa, peça o polvo com arroz no forno (22€). Outro afago preciso.

É hora de voltar para a parte alta? Dica de sobrevivência: vá de funicular. Os 2,50€ desembolsados por poucos minutos no “transporte” valem muito a pena quando você se dá conta dos muitos metros que precisaria subir convertidos em degraus e ladeiras sem fim. É lá em cima que se firmam três outros clássicos da boa mesa portuense: a CASA GUEDES, o BUFETE FASE e o LADO B. Os dois últimos disputam com alguns outros endereços o título de “melhor francesinha do Porto” — criação mais famosa, depois do vinho local. Gosto é gosto e, quando se trata do lugar original da receita, acredito que chegamos a um ponto em que pouco se vê diferença no resultado final. Uma vez em ambos, a probabilidade de comer um bom exemplar da substanciosa receita de pão de forma, linguiça, salsicha fresca, presunto, bife, queijo e ovo, servidos em molho de tomate, cerveja e pimenta, é grandíssima.

Se a dúvida bater ou ainda houver apetite — leia-se oportunidade –, não deixe de fazer uma visita ao sr. Guedes. É ele quem prepara, há mais de 30 anos, os sanduíches do estabelecimento que leva seu nome e que tem entre os recheios mais bem cotados o suculento pernil assado por horas com queijo Serra da Estrela (3,90€). No momento de fazer o pedido, lembre-se de elencar a cremosa mousse de chocolate caseira. Com cerveja ou sangria, é garantia de um final de roteiro feliz.

SE AINDA TIVER TEMPO
Visite o parque-museu contemporâneo de Serralves. É o mais importante nesse tipo de arte do país e conta com exposições permanentes e itinerantes ao longo de todo o ano (10€). Vá até Matosinhos e (re)experimente o trabalho do chef brasiliense Emerson Mantovani que, há cerca de um ano, abriu o RESERVA WINEBAR (foto abaixo)com uma proposta de fusão da cozinha portuguesa com a brasileira.

Prove uma das éclairs da LEITARIA DA QUINTA DO PAÇO. A casa tem na receita artesanal de chantilly um de seus pontos altos, que dá para experimentar como dose extra do expresso acompanhando qualquer uma das bombas escolhidas.

JÉSSICA GERMANO é jornalista, especialista em conteúdo digital e apaixonada por comida. Escreveu por seis anos na revista Encontro, do Correio Braziliense, teve uma coluna de gastronomia lá por dois e há um ano embarcou para Portugal em busca de novas histórias e sabores. Relata tudo o que vê, prova e gosta no perfil @falando.brasileiro, no Instagram

Editores, colaboradores e convidados do portal Gastronomix.

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